Feridouro

Quem de aproxima de Feridouro vindo do Sul, nada mais vê que árvores perfeitamente alinhadas com os montes que circundam e abraçam a aldeia. Em tempos, existiam arvores bem diferentes, variadas, uma baixas, outras altas, umas com folhas abundantes, outras nem por isso e por isso os habitantes diziam que o seu vale era verde. 

Encafuados no meio dos montes, os habitantes de Feridouro viviam felizes com o seu trabalho, os animais e a ribeira que ainda corre, serpenteando as arvores e os montes. Nos dias de festa, matava-se o cordeiro, fazia-se pão e vestia-se a roupa para ir à missa na capelinha da aldeia. 

 

“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.” 

 

Um dia veio um homem num carro, vestido com as roupas da cidade, e subiu o monte a pé e desceu e voltou a subir durante dias a fio, subia e descia, trazia agora consigo uma fita de medir. Passados outros tantos dias, o homem voltou com mais 2 homens e uma pasta cheia de papeis escritos e desenhos coloridos e chamou todos os habitantes da aldeia, todos não, que as mulheres e as crianças não eram chamadas para o que o homem queira falar. Falou durante horas e minutos que pareciam intermináveis e os rostos de desconfiança dos habitantes do Feridouro que chegaram à reunião, lentamente se ia tornando em rasgados sorrisos de esperança no futuro do seu vale. 

 

As novas árvores vinham do outro lado do mundo, da Austrália onde estava o primo do irmão do cunhado da Maria, e cresciam mais depressa que as todas as outras. Era uma mina que tinham descoberto no Feridouro, não uma mina de carvão que iria encher o vale de negrume, mas sim uma mina verde de árvores perfeitamente alinhadas com os montes. 

 

E assim foi. 

 

O Feridouro tornou-se uma ilha no meio das árvores do papel, e as pessoas começaram a ir embora, umas porque iam estudar e viver para outros horizontes e outras porque as árvores não davam trabalho como as outras e iam procurar trabalho para outras aldeias ou cidades. E não voltaram.  

 

Então quem ficou? Ninguém voltou? Estará a aldeia abandonada ou ainda vive no meio dos montes e das árvores, do ribeiro e dos pássaros, do sol e da chuva? 

Those who approach Feridouro from the South, see nothing more than trees perfectly aligned with the hills that surround and embrace the village. In times, there were very different trees, varied, some tall, some short, some with abundant leaves, others not so and for that reason the inhabitants said that its valley was green.  

 

Embedded in the middle of the hills, the inhabitants of Feridouro lived happily with their work, the animals and the stream that still flows, meandering through the trees and hills. On feast days, the lamb was killed, bread was made and clothes were put on to go to mass in the village chapel. 

 

One day a man came in a car, dressed in city clothes, and went up the hill on foot and went down and up again for days and days, going up and down, he now had a measuring tape with him. After long days, the man came back with 2 more men and a folder full of written papers and colored drawings and called all the inhabitants of the village. He spoke for hours and minutes that seemed interminable and the suspicious faces of the inhabitants of Feridouro who arrived at the meeting, slowly became broad smiles of hope in the future of their valley. 

 

The new trees came from the other side of the world, from Australia where Maria's brother-in-law's brother's cousin was, and grew faster than all the others. It was a mine they had discovered at Feridouro, not a coal mine that would fill the valley with blackness, but a green mine of trees perfectly aligned with the hills. 

 

And so it was. 

 

Feridouro became an island in the middle of the paper trees, eucalyptus, so people started to be wealthier but they started to leave, some because they were going to study and live for other horizons and others because the trees didn´t demand the kind of intensive work the others did and went to look for work for other villages or cities. And they didn't come back. 

 

So who stayed? Nobody came back? Is the village abandoned or is it still living in the midst of hills and trees, the stream and birds, the sun and the rain?