Remotus

O projeto pretende interpretar o mito da caverna de Platão à luz do relacionamento do individuo com a sociedade atual. 

 

A caverna de Platão tem sido objeto de diversas interpretações ao longo da história da humanidade, mesmo através da sua associação à fotografia. Platão fala de sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna e Susan Sontag diz que “A humanidade permanece irremediavelmente presa na Caverna de Platão, continuando a deleitar-se, como é seu velho hábito, com meras imagens de verdade”, ou seja, a fotografia vista como representação da realidade e não “a” própria realidade.

 

Mas as cavernas atuais ultrapassam o conceito da mera representação da realidade contida numa fotografia, são os elementos que impedem o homem de estar no momento presente, de ter capacidade de ação e sentido crítico. Por isso, passa a viver no mundo da ilusão, sem questionar o que o rodeia, com a sensação de vazio e de não-pertença. Nesse sentido, é possível destacar: o uso constante de dispositivos móveis em qualquer momento e lugar, tais como tablets e smartphones; a proliferação das redes sociais; a busca desmedida pelo "ter" e não pelo "ser"; as músicas e filmes que seguem o mesmo padrão e dificilmente se diferenciam uns dos outros; o algoritmo que molda e afunila a informação a que temos acesso.

 

Este conjunto de elementos moldam o espírito humano e vergam os indivíduos a uma catarse multimédia, desprovendo-o de um pensamento racional e crítico, tornando-os gradualmente em sujeitos passivos e inanimados. Como bem caracterizava o filósofo grego, existem dois mundos, o sensorial – no qual o homem se deixa seduzir pelos cinco sentidos e cuja perceção, desse mundo entenda-se, é apenas uma cópia malsucedida de ideias, uma projeção de uma realidade ilusória e o mundo inteligível ou das ideias, que representa a essência, a verdade, o imutável, o belo, o bom e o verdadeiro.

 

Por outro lado, a progressiva digitalização da sociedade faz com que desapareçam os ágoras modernos, ou seja, os locais de reunião informal das pessoas, os locais físicos onde os indivíduos requisitam serviços ou adquirem bens. As pandemias e progresso tecnológico, aliado a uma racionalização dos custos das estruturas, aceleraram este processo de virtualização desses espaços de socialização.

 

Algumas pessoas refugiam-se nas suas cavernas por ser a opção mais segura e confortável, sem procurar soluções para os seus problemas, sem colocar em causa o "status quo" e sem descobrir o formidável mundo do pensamento.

 

Conseguiremos nós sair da caverna e voltar a "ver"?

The project intends to interpret the myth of Plato's cave in the light of the individual's relationship with today's society.

 

Plato's cave has been the subject of several interpretations throughout human history, even through its association with photography. Plato speaks of shadows cast by fire on the opposite wall of the cave and Susan Sontag says that "Humanity remains hopelessly trapped in Plato's Cave, continuing to delight, as is its old habit, in mere images of truth", that is, photography seen as a representation of reality and not “the” reality itself.

 

But today's caves go beyond the concept of the mere representation of reality contained in a photograph, they are the elements that prevent man from being in the present moment, from having the capacity for action and critical sense. Therefore, he starts to live in the world of illusion, without questioning what surrounds him, with the feeling of emptiness and non-belonging. In this sense, it is possible to highlight: the constant use of mobile devices at any time and place, such as tablets and smartphones; the proliferation of social networks; the excessive search for "having" and not for "being"; the songs and movies that follow the same pattern and hardly differ from each other; the algorithm that shapes and funnels the information we have access to.

 

This set of elements shape the human spirit and bend individuals to a multimedia catharsis, depriving them of rational and critical thinking, gradually turning them into passive and inanimate subjects. As the Greek philosopher well characterized, there are two worlds, the sensorial - in which man allows himself to be seduced by the five senses and whose perception, of this world, it is understood, is only an unsuccessful copy of ideas, a projection of an illusory reality and the intelligible world or ideas, which represents the essence, the truth, the immutable, the beautiful, the good and the true.

 

On the other hand, the progressive digitization of society makes modern agoras disappear, that is, the informal meeting places of people, the physical places where individuals request services or purchase goods. Pandemics and technological progress, combined with a rationalization of the costs of structures, accelerated this process of virtualization of these spaces of socialization.

 

Some people take refuge in their caves because it is the safest and most comfortable option, without looking for solutions to their problems, without questioning the "status quo" and without discovering the formidable world of thought.

 

Will we be able to get out of the cave and "see" again?